Línguas crioula cabo-verdiana e portuguesa : a coexistência das línguas materna e oficial em turmas de 1os e 2os anos de uma escola de ensino básico em Cabo Verde
Autor: Kelly de Aguiar Arruda (Currículo Lattes)
Resumo
Esta dissertação de mestrado foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação, da Universidade Federal do Rio Grande-FURG, na Linha de Pesquisa "Espaços e Tempos Educativos", com apoio financeiro do CNPq. A questão que norteou a pesquisa foi: Que lugar as línguas crioulo cabo-verdiana e portuguesa ocupam em uma Escola de Ensino Básico em Cabo Verde, mais especificamente no 1º e no 2º ano? A perspectiva metodológica é de abordagem qualitativa, seguindo, principalmente, os pressupostos de Bogdan e Bicklen (1994); Silva (2009) e Godoy (1995). Dentre os dados interpretados por meio de análise documental, destaco leis, dissertações e também cadernos escolares e livros didáticos. Além destes, observações e filmagens realizadas em diferentes espaços da escola participante da pesquisa, bem como entrevistas com gestores, professores do 1º e 2º anos e estudantes da FURG, oriundos de Cabo Verde, além de registros no diário de campo. Como referencial teórico, destaco as contribuições de Brian Street (2003; 2006; 2010; 2013; 2014), no que diz respeito ao letramento como práticas sociais que envolvem o uso da leitura e da escrita e os conceitos de modelo autônomo e ideológico de letramento; Soares (2004; 2009; 2016; 2017) e Kleiman (2012), principalmente no que se refere ao conceito de alfabetização e letramento escolar. Autores como Bhabha (2014), Hall (2006) e Geertz (2008) subsidiaram as questões ligadas à identidade e à cultura. Amaral (1991), Lopes Filho (2008), Albuquerque e Santos (1991; 1995; 2002) e Barros (1939) foram referências para as discussões sobre a constituição de Cabo Verde, um país formado por dez ilhas, localizado a aproximadamente 450 km da costa ocidental da África, colonizado por europeus e africanos, em sua maioria, escravos. Da mistura de etnias e culturas, surge a representação humana de Cabo Verde, ou seja, o crioulo ou o cabo-verdiano, bem como a língua materna: crioulo cabo-verdiano. Contudo, após a independência do país, foi decretada como língua oficial o português. Os resultados desta investigação indicam que o lugar ocupado pelas línguas crioula cabo-verdiana e portuguesa, na escola investigada, é distinto e desigual, uma vez que as aulas são ministradas exclusivamente em língua portuguesa e a língua crioula cabo-verdiana é falada apenas em situações informações, tais como as que ocorrem no momento do recreio. A análise dos cadernos dos alunos, dos livros didáticos e dos vídeos produzidos no contexto escolar indicam que a aprendizagem da língua escrita também ocorre basicamente em língua portuguesa, mesmo que a legislação aponte para a necessidade de a língua crioulo cabo-verdiana se fazer presente nos espaços oficiais, de modo concomitante à língua portuguesa. As oportunidades desiguais de fala que ambas as línguas produzem, de certa forma, produzem uma hierarquização não só entre as línguas, mas, de modo mais amplo, entre culturas.